Capítulo 1 – Carta ao Passado
- André Fiello

- 17 de abr. de 2025
- 4 min de leitura
Atualizado: 12 de ago. de 2025
Primeiro capítulo da obra lítero-musical de André Fiello. Em "Carta ao Passado", conhecemos Elian, um menino que escreve sua dor, fé e memórias em forma de conto. Descubra o universo de Luthenmor.
“Dizem que Luthenmor não existe em nenhum mapa... Mas há quem o encontre dentro de si.”
“Um reino onde as memórias têm castelos, as dores escrevem cartas, e o tempo dança com a arte. Ali vive Elian, o menino do espelho de névoa — guardião de tudo aquilo que nunca pôde ser dito em voz alta, mas que agora ecoa em palavras e melodias.”
📜 CARTA AO PASSADO
(Capítulo I – O menino do espelho de névoa)

“Carta ao Passado” é a primeira faixa do álbum Cartas e também o primeiro capítulo desta obra lítero-musical. Neste conto, mergulhamos nas memórias de Elian — um menino que escreve para sua infância esquecida, entre saudade, fé e feridas não cicatrizadas.
No extremo oeste do Reino de Luthenmor, entre colinas que dormiam sob véus de névoa, nasceu um menino com olhos antigos demais para a idade. Diziam que ele falava com o vento. Que ouvia músicas onde ninguém escutava som. E cantarolava versos que nunca tinha lido em lugar algum. Chamaram-no de Elian. E desde os primeiros passos, ficou claro: ele não pertencia aos moldes do mundo ao seu redor.
Havia uma luz em seus olhos que os adultos não conseguiam nomear, e por isso, temiam. Havia uma melodia em sua voz que os silêncios religiosos tentavam sufocar. Mas Elian já era inteiro — só não sabiam enxergá-lo.
As paredes de sua infância eram brancas e limpas — limpas demais. Ali, a bagunça era pecado, a dúvida era rebeldia e a alegria espontânea era quase heresia. Elian cresceu entre salmos e castigos. Aprendeu a abaixar os olhos. A sorrir com culpa. A sentar-se com perfeição para ser amado — ou ao menos, não ser punido. Seus trajes eram sempre impecáveis. Mas sob eles…Cicatrizes. Invisíveis, mas ardentes. Marcas deixadas por risos cortantes de outras crianças, e perguntas que voltavam como lâminas: — "Por que ele não é como nós?"
Na escola, Elian era o último a ser escolhido. O primeiro a ser julgado. Chamavam-no de estranho, de exagerado, de errado. Mas ninguém perguntava o que havia por trás daquele silêncio bonito nos olhos dele.
Havia tentado se moldar. Tentou calar a música que pulsava dentro de si. Tentou seguir os caminhos que lhe apontavam. Viver como esperavam. Mas havia sempre algo que doía mais do que a repressão:
A saudade de si mesmo.
Ele buscava pertencimento como quem procura um feitiço esquecido em algum livro antigo. Tentava se aproximar, tocar outros corações com gentileza — mas quase sempre voltava com os dedos machucados. E em cada desentendimento, em cada gesto mal interpretado, ele escrevia cartas. Algumas em papel. Outras apenas em pensamento.
"Um dia alguém vai me ver de verdade", ele dizia para a lua. "Um dia alguém vai me amar sem medo". Mas os dias passavam, e Elian seguia dançando sozinho no salão escuro da esperança.
Durante muito tempo, Elian acreditou que, para ser aceito, precisava diminuir quem era. Tentou moldar sua essência aos contornos do que consideravam certo. Calou perguntas, disfarçou sonhos, ensaiou versões de si que não doíam tanto aos outros. E por um tempo, achou que isso bastava.
“Se eu for mais obediente, talvez deixem de me odiar.” “Se eu cantar mais alto, talvez não percebam que minha voz está presa.”
E então vieram os afetos — confusos, breves, difíceis de nomear. Elian tentava se conectar, mas quase sempre voltava com mais perguntas do que respostas. Havia algo no modo como sentia que não se encaixava nos moldes ao redor. E por isso, aprendeu cedo a silenciar o que sentia.
Elian começou a se perguntar se era ele o problema. Mas em vez de desistir de amar, ele escreveu sobre isso. E foi na arte que sua fé encontrou um novo idioma.
Na calada da noite, enquanto todos dormiam, Elian sussurrava suas canções. Não para o mundo — mas para si. Como um eco suave daquilo que, no fundo, já sabia que um dia se tornaria.
Com o tempo, ele cresceu. O menino do espelho de névoa deu lugar a um jovem de voz serena, mas olhar carregado de trovões contidos.
Hoje, Elian vive fora das muralhas. Construiu seu próprio castelo — feito de versos, silêncios e cicatrizes ressignificadas. Aprendeu a vestir sua essência como armadura.
Mas às vezes, ainda sonha. Com o menino que dançava escondido. Com o garoto que se calava por medo. Com o pequeno príncipe que acreditava, no fundo do peito, que um dia seria compreendido. E quando esses sonhos vêm... Elian escreve.
Esta carta não é para curar. Não é para acusar. Nem para esquecer.
É para lembrar.
“Eu te ouvi, menino do espelho.” “Eu nunca te abandonei.”
E assim, ao escrever sua primeira carta, Elian sela um pacto com o passado. E abre o portão para todas as outras vozes que ainda moram dentro dele.
Essa é apenas a primeira carta.
Ainda existem muitas vozes em silêncio. Mas agora… elas têm a permissão para ecoar.
Sobre Luthenmor:
Luthenmor é um reino simbólico e fictício criado por André Fiello, cenário central das histórias vividas por Elian — seu alter ego literário. Este universo foi concebido como extensão lítero-musical do álbum “Cartas”, onde cada faixa se transforma em um capítulo narrativo. Luthenmor representa memórias, dores, sonhos e descobertas em forma de metáforas, compondo uma jornada emocional através da arte, da palavra e da música.

Conto escrito por André Fiello, inspirado na faixa “Carta ao Passado”. Capítulo integrante da obra lítero-musical da era “Cartas”. Por ordem de Elian — artesão de lembranças e guardião de cartas não enviadas.
Esta obra é protegida por direitos autorais e registrada sob propriedade intelectual de André Fiello.
Qualquer reprodução, adaptação, cópia parcial ou integral, distribuição não autorizada ou uso comercial sem a devida permissão constitui violação legal.
Elian, o universo de Luthenmor, os contos e todas as composições associadas fazem parte da obra lítero-musical “Cartas”, criada com exclusividade pelo autor.
Seja consciente. Respeite a arte, o artista e o tempo dedicado a cada palavra.
Todos os direitos reservados ao autor.
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