Capítulo 4 – Nostalgia
- André Fiello

- 1 de jul. de 2025
- 8 min de leitura
Atualizado: 12 de ago. de 2025
No coração do reino de Luthenmor, há uma torre tão alta que toca as nuvens e tão silenciosa que é possível ouvir o tempo sussurrar dentro dela. Chamam-na de Torre dos Sussurros. Diz a lenda que quem sobe até o topo com o coração aberto pode reviver os instantes mais puros — ou mais doloridos — que um dia habitou.
📜 NOSTALGIA
(Capítulo IV – Onde o tempo toca o que já não existe)

No extremo norte do reino de Luthenmor, ergue-se a Torre de Vidralis: uma espiral translúcida que fende o nevoeiro e esconde, no alto, a Ampulheta Mágica — instrumento antigo capaz de costurar presente e passado em um único fôlego. Ninguém sobe ali por curiosidade; era evitada por quase todos os habitantes. Só quem carrega um buraco no peito, bastante fundo, arrisca ver até onde ele leva. Elian chegou ao sopé da torre antes do alvorecer. Ele entendeu que precisava subir quando o frio dentro de si começou a superar o inverno do lado de fora.
A saudade estava se acumulando nos ossos. E não era só por alguém — era por um tempo inteiro que lhe escapava por entre os dedos. Então, os portões começaram a ranger, empurrados pela ventania do frio, como se estivessem reclamando daquele visitante insistente. Atrás dele, as luzes do Castelo Central ainda dormiam; à frente, setenta e três degraus se erguiam como um desafio. Cada degrau representava um ano do reino ― diziam os cronistas, e cada ano escondiam histórias inteiras de gente que já virara poeira — poeira semelhante àquela contida na ampulheta. Elian subiu os 73 degraus da torre carregando uma carta vazia e sem destinatário, e um medo que já nem sabia nomear.
O ar no primeiro lance cheirava à terra molhada. Na mente de Elian, abriu-se uma clareira verde, onde ele — versão criança — corria atrás de borboletas de cor esmeralda. A cada passo, sentia o ar mudar. Mais denso. Mais íntimo. Os sons dos sinos da cidade sumiram. Até o barulho do vento se calou. Restou apenas o som de seus próprios passos... e lembranças. Durante a subida, uma voz doce e suave ecoava o ambiente, dizendo:
"Não tenha medo... Continue a subir. Seu coração é a bússola..."

No topo da torre, a ampulheta o esperava — em um pedestal de madeira viva, envolta por correntes de luz flutuante. Ela não marcava segundos: ela pulsava no ritmo da alma. Cada grão de areia dourada que descansava no vidro parecia ter vindo de uma lembrança esquecida. Ao tocá-la, a luz da torre se apagou. A ampulheta virou sozinha. E o tempo desfez o nó. O primeiro grão caiu. E com ele, Elian voltou a ser criança. Estava num campo, cercado por pequenas flores brancas que dançavam ao menor toque do vento. Corria sem direção, apenas por prazer. O céu tinha um tom lilás, típico das manhãs de Luthenmor nas estações antigas. Ao fundo, uma casa simples, com varandas longas e tecidos pendurados. Dali vinha um som: risos, cantigas, panelas. Ele se viu inventando instrumentos de lata, batucando melodias que ninguém entendia. Apenas sendo a criança especial que sempre foi. Na varanda, encontrava-se uma mulher de presença solar. Seu nome, Aurélia. Mas Elian a chamava de "Guardiã da Luz Dourada". Era ela quem acendia velas quando os dias ficavam escuros. Era ela quem conhecia os remédios do corpo e os encantos da alma.
Aurélia tinha as mãos gastas e o sorriso eterno. E toda vez que Elian se sentia invisível para o mundo, era nela que ele se via refletido. Ela lhe contava histórias ao entardecer, sob uma mangueira mágica que só florescia para crianças de coração limpo. Ela lhe ensinou que o tempo podia curar, mas também podia ferir se ele o deixasse escapar. E toda vez que Elian tropeçava no próprio medo, era a Guardiã quem o levantava com uma frase só:
"Você não precisa ser forte o tempo todo, meu amor... só precisa continuar!"

Mas então, os grão caíram mais rápidos. O ar pesou. Corredores de pedras úmidas substituíram o jardim. Elian cresceu. E junto do crescimento, vieram as sombras....
A escola, que um dia era um lugar de descoberta, se tornou arena. Os corredores de pedra sussurravam zombarias, e os colegas viraram juízes, tornando-se flechas bem afiadas. Seus olhos brilhavam diferente — e aquilo os incomodava. Sua voz era doce demais — e isso os incomodava ainda mais. Em cada insulto, Elian sentia-se angustiado. Ainda assim, mantinha no bolso um bilhete da Guardiã, dobrado mil vezes:
"Não deixe que a boca deles decida a forma do teu coração."
Quando tudo parecia desmoronar, as palavras da Guardiã o acalmavam; mesmo quando ela não dizia nada, só a lembrança do cheiro do chá de folhas azuis já era bálsamo o suficiente para que toda aquela tempestade acalmasse.
Mas os grãos seguiram caindo... O vitral púrpura filtrou a luz. Vieram os templos. As músicas sagradas. As vestes obrigatórias. Os discursos sobre pureza. Sobre correção. Sobre obediência. Elian, adolescente, afinava a sua própria voz para não destoar. Mas a melodia interna — doce, livre, fluorescente — insistia em vazar. E dentro de tudo aquilo, Elian tentava encaixar o que não tinha forma. tentava esconder as cores. Podava os sentimentos. Engolia quem era. Um dia, ajoelhou e suplicou:
"Apaga quem eu sou! Só me deixa ficar."
Mas no silêncio que veio depois, só conseguia ouvir a voz da Guardiã ecoando:
"Ficar sem ser inteiro não é ficar: é se perder duas vezes."
O penúltimo grão caiu. E então, a Guardiã não estava mais lá. A casa ficou vazia. O jardim perdeu a cor. A varanda ficou muda. Não houve despedida. Só ausência. O primeiro raio de sol atravessou o vitral quebrado.
Foi então que Elian percebeu: subira metade do caminho e já sentia as pernas trêmulas — não de cansaço físico, mas de excesso de memórias. Os degraus 42-60 se fundiram num só corredor de espelhos cintilantes. Ele procurou pela Guardiã por toda a casa, mas ela havia desaparecido como o aroma do bolo que ela costumava fazer. Era como se o tempo tivesse levado tudo — menos a saudade. E então, ele compreendeu: A nostalgia era a única forma que a alma tinha de manter vivos os pedaços que a morte não conseguia levar. Cada espelho daquele corredor ecoavam vozes que o questionavam:
E se eu tivesse falado o que sentia? E se eu tivesse vivido o que desejei calado? E se eu tivesse corrido em vez de ficar?

As perguntas se embaralhavam a cada passo dado. Elian tentou ignorar, mas os espelhos eram teimosos; refletiam não o rosto, e sim as lacunas.
Quando alcançou o degrau 61, o espelho final ruiu como vidro sob trovão. Atrás dele, abriu-se uma porta estreita: à Sala da Areia Suspensa.
O teto perdia-se em névoa azul. Ao centro, um pedestal vivo, pulsava a Ampulheta Mágica. Dentro dela, grãos reluziam como minúsculos sóis. Elian aproximou-se. No vidro, viu-se adulto — mas com os olhos de criança. Era como se passado e presente colidissem naquele reflexo. Sem hesitar, virou a ampulheta. Primeiro arrojo de areia: o campo lilás retornou. A Guardiã veio sorrindo, oferecendo-lhe um pão redondo com mel. Ele aceitou, e o gosto era tão real que sentiu migalhas entre os dentes. Segundo arrojo: a escola. O insulto que mais doeu ecoou — mas, desta vez, a Guardiã apareceu bem atrás dele, pondo a mão invisível sobre seu ombro. O insulto perdeu força, virou eco vazio. Terceiro: o templo. A melodia abafada emergiu em coro livre. Em vez de engolir a voz, Elian cantou alto — e o teto da igreja se abriu em constelação. Os fiéis sumiram; ficaram apenas ele, os cosmos, e a nota que sempre quis soar. Quarto: o quarto vazio da Guardiã. Ele entrou. Tudo empoeirado. Sobre a cama, um lenço dourado — o último que ela usara. Quando o tocou, ouviu um sussurro:
"Saudade, de um tempo atrás... Momentos, que não voltam mais..."

O último grão caiu. A ampulheta zerou. A torre voltou ao presente. A luz reacendeu. No pedestal, um compartimento secreto se abriu. Dentro dele, um caderno de capa ambarina.
Ao folhear, Elian encontrou páginas preenchidas pela caligrafia da Guardiã: listas de ervas, receitas, orações bordadas em letra inclinada, e — sobretudo — histórias que ela escrevera sobre ele.
História 1 - Narrava o dia em que Elian, com cinco anos, prometeu "inventar uma canção que fizesse o mundo parar para ouvir".
História 7 - Descrevia o primeiro poema que ele rabiscou na parede, escondido atrás do armário, porque achava o papel "muito pequeno para caber seus sentimentos".
História 18 - Falava do dia em que a Guardiã percebeu que a coragem dele ainda era maior do que o medo, só precisava de tempo para florescer.
Nas últimas páginas, linhas inacabadas, terminavam assim:
"Se um dia eu me for antes de vê-lo brilhar, não esmoreça. A sua luz ti levará a bons caminhos."

Incrédulo, a carta caiu das mãos de Elian, aberta. Nela, não haviam palavras. Só um pedaço de fita dourada — o mesmo tom dos vestidos da Guardiã.
Ele sorriu. Não com alegria. Mas com honra. E enquanto descia as escadas da torre, sentia que cada memória ainda morava nele — Não como prisão, mas como raiz. Seus passos, não eram mais pesados. Agora, firmes. Cada degrau devolvia-lhe o presente. No horizonte, Luthenmor cintilava como cidade recém lavada pela chuva.
De volta ao palácio de Luthenmor, ele direcionou-se ao seu quarto, guardou o lenço dourado em um pequeno baú de madeira, abriu a carta, e finalmente escreveu duas frases:
"Você me ensinou a lembrar... agora eu sei como seguir."
Dobrou a carta, selou-a com cera dourada e a guardou no baú de madeira, junto ao lenço dourado. A magia da torre talvez fosse apenas um grande delírio da mente de Elian. Mas em seu coração, habitava toda a verdade presenciada naquele lugar.
De fato, ele sentiu profundamente o peso da saudade transmutar-se, e concluiu: já não era algema, era asa. E entendeu — de uma vez por todas — que lembrar não dói mais que esquecer, ao certo: dói de um jeito diferente, mas as lembranças nos ensinam a voar sobre a dor. Dizem que, toda vez que alguém vira a Ampulheta Mágica na Torre dos Sussurros, um novo grão é acrescentado à areia infinita do Tempo.
Naquela manhã, Luthenmor ganhou grão dourado de esperança. E a torre, antes temida, tornou-se farol para todos que carregam saudade no peito. Desde aquele dia, Elian retornou à Torre dos Sussurros. Ao se aproximar do portão enferrujado, notou um bilhete preso entre as grades, como se alguém o tivesse deixado às pressas, à espera de ser encontrado, que dizia:
"Sobe, lembra, chora, mas volta. Porque a memória é raiz, não prisão. E ninguém caminha alto sem as raízes bem cravadas no chão."
Após ler o bilhete, Elian permaneceu imóvel diante do portão da Torre. O vento dançava entre os galhos secos, como se até a natureza contivesse o fôlego, aguardando sua reação. A tinta da mensagem ainda fresca, o papel trêmulo entre seus dedos.
Silenciosamente, ele ergueu os olhos ao céu enevoado e, num sussurro mais íntimo que a própria alma, perguntou:
— E o que é você? Um mistério? Um silêncio? Ou essa melancolia sem cor, que atravessa tudo?
Tudo doía. Tudo levava à reflexão. Como se aquele bilhete escondesse mais que palavras — um eco vivo, prestes a se revelar.
— Será isso uma chance de reviver? — murmurou, quase sem voz. — Será...?
No alto da torre, a ampulheta brilhou. E então… girou, mais uma vez.

Conto escrito por André Fiello, inspirado na faixa “Nostalgia”. Capítulo integrante da obra lítero-musical da era “Cartas”. Por ordem de Elian — artesão de lembranças e guardião de cartas não enviadas.
Esta obra é protegida por direitos autorais e registrada sob propriedade intelectual de André Fiello.
Qualquer reprodução, adaptação, cópia parcial ou integral, distribuição não autorizada ou uso comercial sem a devida permissão constitui violação legal.
Elian, o universo de Luthenmor, os contos e todas as composições associadas fazem parte da obra lítero-musical “Cartas”, criada com exclusividade pelo autor.
Seja consciente. Respeite a arte, o artista e o tempo dedicado a cada palavra.
Todos os direitos reservados ao autor.
🔗 Acompanhe o artista em todos os cantos:
Instagram • @andrefiello
Facebook • @andrefiello
TikTok • @andrefiello
YouTube • @andrefiello
Ouça a Discografia completa de André Fiello • DISCOGRAFIA COMPLETA




Comentários