Capítulo 2 – Ecos de Memórias
- André Fiello

- 21 de abr. de 2025
- 5 min de leitura
Atualizado: 12 de ago. de 2025
As memórias voltam. Não como fantasmas. Mas como ecos. Gentis. Inesperados. Vivos.
Há lembranças que se apagam. E há outras... que continuam cantando mesmo depois do silêncio. Este capítulo é para aquelas que sobreviveram.
📜 ECOS DE MEMÓRIAS
(Capítulo II – As coisas que ainda cantam dentro de mim)

“Ecos de Memórias” é a segunda faixa do álbum Cartas e também o segundo capítulo desta obra lítero-musical. Neste conto, revisitamos as lembranças mais profundas de Elian — fragmentos que sobreviveram ao tempo, entre felicidade, dor, saudade e perdão.
No Reino de Luthenmor, há um campo onde o vento não sopra — ele sussurra. Sussurra nomes. Túnicas ao sol, penduradas no varal da memória. Vozes que não voltam, mas ecoam. E ali, Elian costuma caminhar com cuidado, como quem pisa em chão sagrado.
Desde muito novo, Elian desenvolveu um dom peculiar: o de lembrar dos detalhes. Das palavras ditas e não ditas. Do aroma das ervas fervendo no caldeirão. Do som da chaleira de cobre assobiando na antiga cozinha de pedra. Do frio das lajes de mármore sob seus pés descalços. Ele era feito de percepções.
Lembrava do dia em que recebeu um pergaminho dobrado com esmero, com uma caligrafia trêmula, mas honesta: "Você é diferente. Isso é bonito." Aquela carta desapareceu anos depois, mas a sensação ficou. Aquilo o fez sentir que, por um instante, alguém o via.
Houve também o verão em que ele acreditava que o mundo era bom. Um dia inteiro correndo pelos jardins do castelo, com o rosto sujo de amoras silvestres. Um cachorro chamado Leo uivando ao longe. A luz dourada do fim da tarde atravessando os vitrais e caindo sobre sua pele como se dissesse: "você pertence a este momento".
Teve um aniversário com pão doce artesanal e coração cheio. A corte reunida em volta da mesa de madeira talhada, uma melodia tocando suavemente nas flautas, e alguém lhe dizendo que o amava com sinceridade. Talvez tenha sido a única vez. Ele não se lembra da voz, mas recorda exatamente como se sentiu ao ouvir.
E teve, também, o dia em que encontraram seu diário de composições escondido sob a cama de dossel. Riram. Zombaram. Chamaram-no de sonhador ridículo. Delicado demais. Fraco. E ele, desde então, aprendeu a esconder melhor seus sonhos. Não a deixar de tê-los — apenas a guardá-los em lugares que ninguém mais pudesse alcançar.
Na adolescência, Elian descobriu a dor dos reflexos. Começou a se perguntar se seus olhos realmente pertenciam ao semblante que via no espelho de bronze. Tentava caber em moldes que não o aceitavam. Tentava falar menos. Rir mais baixo. Ser menos. Diminuía-se com maestria. Mas mesmo assim, as memórias boas vinham — como um tipo de resistência interna. Um lembrete de que ele já havia sido feliz, mesmo que por fragmentos.
Havia aquela preceptora que o fazia sentir especial. Que dizia que sua forma de escrever era incomum, e isso era um dom. Ela leu um poema dele uma vez e ficou em silêncio por muito tempo. Depois, apenas sussurrou: "continue. Por favor, continue." Elian não esqueceu. Aquilo o fez preencher mais três volumes com palavras.
E havia o primeiro entardecer que ele contemplou sozinho. Aos 15 anos, num dia difícil, subiu até a torre mais alta da biblioteca do reino e ficou ali — observando o céu transformar-se em pintura. Chorou sem som. Mas sentiu que, ali, ninguém poderia impedi-lo de ser.
Teve também um abraço que durou mais que o normal. Um silêncio compartilhado com alguém que o entendia sem palavras. Esse alguém partiu depois. E Elian nunca perguntou por quê. Porque ele sabia que certas pessoas não ficam — apenas passam para deixar algo.
Mas nem todas as memórias ficaram intactas. Algumas foram corroídas por decepções. Há lembranças que eram doces… até que alguém decidiu estragar tudo. Aquele amigo que traiu sua confiança. A pessoa que usou seus sentimentos como brincadeira. O adulto que deveria protegê-lo e apenas feriu.
Essas memórias… doem. Mas também moldam.
Hoje, Elian aprendeu a visitar essas memórias com respeito. Como quem entra num salão antigo, cheio de tapeçarias desbotadas e retratos emoldurados. Ele limpa com os dedos, olha com saudade, mas sabe que não pode morar ali.
Nem tudo foram dores. Teve tardes em que ele foi o menino mais feliz do mundo. Brincando entre livros e pergaminhos, mas completo. Teve alguém que segurou sua mão nos corredores do castelo quando tudo parecia difícil demais. Teve bilhetes escritos com pena, cânticos guardados em pergaminhos, cartas que nunca foram enviadas.
Mas então vieram os dias em que a lembrança se tornou uma lâmina. Os que diziam amar, feriam com gestos frios. Os que elogiavam em público, condenavam em silêncio. Os que sorriam em volta da fogueira... alimentavam intrigas nas sombras.
Foi nesse tempo que Elian aprendeu a desconfiar da luz — porque algumas vinham só para ofuscar. Começou a escrever com mais urgência. A registrar tudo antes que o mundo tentasse apagar o que ele era.
E em meio a tudo isso, existiu uma pessoa. Não vamos dizer quem. Mas foi alguém que poderia ter feito tudo permanecer bonito. E escolheu estragar. Por causa dessa pessoa, muitas memórias felizes passaram a doer. E o que antes era abrigo, virou ruína. Mas Elian... Elian aprendeu a não jogar fora o todo por causa de uma parte. Ele decidiu que as lembranças boas não mereciam morrer por culpa de quem veio depois. E então, começou a perdoar. Não por quem feriu. Mas por quem ele era quando viveu aquilo.
"Eu não vou apagar o que me fez sorrir... só porque alguém tentou me calar depois."
Hoje, quando ouve certas melodias, sente um frio na barriga. Quando pisa em certos corredores, quase escuta vozes antigas. E quando fecha os olhos... As memórias voltam. Não como fantasmas. Mas como ecos. Gentis. Inesperados. Vivos.
Essa carta é para tudo aquilo que ainda vive dentro de mim — mesmo depois de ter acabado. Para as lembranças que me moldaram. Para os risos e as dores. Para os cheiros e os sons. Para o que foi, mas nunca deixou de ser.
Porque enquanto eu lembrar... ainda canta.

Conto escrito por André Fiello, inspirado na faixa “Ecos de Memórias”. Capítulo integrante da obra lítero-musical da era “Cartas”. Por ordem de Elian — artesão de lembranças e guardião de cartas não enviadas.
Esta obra é protegida por direitos autorais e registrada sob propriedade intelectual de André Fiello.
Qualquer reprodução, adaptação, cópia parcial ou integral, distribuição não autorizada ou uso comercial sem a devida permissão constitui violação legal.
Elian, o universo de Luthenmor, os contos e todas as composições associadas fazem parte da obra lítero-musical “Cartas”, criada com exclusividade pelo autor.
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Elian é tão especial... Que todos o acolham com muito amor ❤️🩹